sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

RESENHA: 30 e poucos anos e uma máquina do tempo

“Observei seu rosto se derreter em uma mistura de felicidade, o privilégio raro de voltar para aquilo, e tristeza, porque ela sabia como tudo aquilo acabava. Porque ela entendia o valor que dávamos às coisas quando elas estavam perdidas para sempre.” (DAVIAU, 2017, p. 81)

Na década de 90, Karl Bender foi o guitarrista de uma banda de sucesso. Agora, aos 40 anos, ele é apenas o decadente dono de um bar em Chicago que pensa naquela época como a melhor da sua vida. Até que um dia, ao procurar seus coturnos no armário, ele se depara com um portal que o leva de volta para um show que assistiu meses antes e ele enxerga a si mesmo lá: solitário e patético. Com a ajuda de seu amigo Wayne, Karl passa a agenciar viagens no tempo para assistir shows de rock, mas as regras são claras: assim que o show acabar, você volta para o presente. Nada de interagir com as pessoas, nada de ficar um pouco mais, nada de alterar o passado. Apenas assistir o show e voltar. Até que Wayne tem uma ideia que muda tudo: voltar para 1980 e salvar John Lennon. Só que Karl comete um erro e manda o amigo para o ano 980 quando Manhattan ainda não era Manhattan e a vida não conhecia a civilização. Esse é só o início de uma jornada que mudará a maneira de Karl ver (e viver) a vida e que o levará (muitas e muitas vezes) até Lena, uma física brilhante que não teve todas as oportunidades que merecia.

Quem não tem arrependimentos? Quem não tem um ou dois momentos da vida para os quais queria voltar para poder agir diferente, com a certeza de que isso mudaria tudo? Será que era tudo tão maravilhoso (ou tão péssimo) como você se lembra? Será que as mudanças seriam boas? O quanto você ganharia caso tivesse essa nova chance? O quanto você perderia? Quais seriam as consequências para as pessoas próximas a você? E se você pudesse voltar apenas como expectador, apenas para assistir aqueles momentos? Como isso influenciaria a sua vida atual? Como você se sentiria após reviver um momento importante e saber que aquilo não muda nada no seu dia a dia? Esses são os questionamentos em torno dos quais “30 e poucos anos e uma máquina do tempo” gira.

A autora não se preocupa em dar explicações. Como as coisas acontecem ou como são possíveis perde a importância diante do que acontece por elas serem possíveis. Tudo o que importa são as consequências e as reflexões que surgem a partir desses acontecimentos e elas não são poucas. Partindo da premissa “viagens no tempo” é claro que a história é um tanto quanto maluca. Por isso impressiona que a autora consiga levar o leitor a refletir sobre sua própria vida, suas próprias escolhas e até mesmo seus arrependimentos (justificáveis ou não) através dela.

Para isso, ela conta com bons personagens que querem todos, basicamente, a mesma coisa: serem felizes. Para Wayne, por exemplo, isso é redescobrir a vida em uma nova sociedade. Para Karl é ficar junto com a mulher por quem ele se apaixona. Para Lena é atingir o status profissional que merece.

A história toda é narrada por Karl e sua maneira de ver a vida contribui muito para a maneira como o leitor interpreta a história. Esse é um cara que acredita que sua melhor época já passou e que ele nunca atingiu todo o seu potencial. Ainda assim, Karl não passa reclamando. Como ele não se leva muito a serio, o leitor também não o leva muito a sério (e o mesmo faz com a história que ele conta). Essa displicência contamina a narrativa, mas adquire contornos mais sérios conforme mais coisas vão entrando em jogo e as consequências das viagens passam a ser maiores.

“30 e poucos anos e uma máquina do tempo” é o tipo de livro que poderia dar errado de muitas formas, mas não dá porque reconhece os seus limites. Não tem intenção de ser ficção científica, nem de ser altamente reflexivo, nem de emocionar ou impactar profundamente o seu leitor. Mas no saldo geral consegue fazer um pouquinho de tudo isso. Um livro de estreia que deixa sem saber o que esperar das próximas obras de sua autora, mas que mostra que ela busca fugir do lugar comum. Em um tempo em que tantas sinopses soam como “mais do mesmo” isso é um mérito e tanto.

Título: 30 e poucos anos e uma máquina do tempo (exemplar cedido pela editora)
Autora: Mo Daviau
N° de páginas: 303
Editora: Fábrica 231

19 comentários:

Alice Duarte disse...

Oiii Mari

Realmente uma aposta diferente, inusitada e original essa da autora, mais ainda se tratando de seu debut na literatura. Achei a dica bem legal, e gosto de que as coisas sejam dosadas, sem termos que esperar demais de uma história. Fica a dica anotadinha para minhas futuras leituras.

Beijos

Alice and the Books

Sil disse...

Olá, Mari.
Não conhecia esse livro ainda. Achei a capa bem feia e não compraria por ela hehe. Mas gosto do tema viagens no tempo e acho que leria o livro só por isso. Mas fiquei na dúvida se vou gostar por causa do protagonista. odeio pessoas que ficam vivendo de passado. Talvez eu leia.

Prefácio

Gabriela CZ disse...

Como histórias de viagens no tempo me atraem naturalmente e essa ainda tem algo do universo do rock fiquei curiosa de cara, Mari. E gostei de saber que traz uma boa trama e boas reflexões, e ainda foge da mesmice. Quero ler. Ótima resenha.

Beijos!

Marília Leocádio disse...

Adoro histórias de viagem no tempo me faz parecer que estamos vivendo naquela época essa história me pareceu bem tranquilo e diferente adoraria conhecer mais um pouco.

Leandro de Lira disse...

Oi, Mari!
Parece ser uma leitura ótima! Eu não conhecia a obra e nem o autor, mas creio que irei adorar. Ao menos a premissa me convenceu bastante e os seus comentários só me deixaram mais curioso.
Espero poder ler em breve e curtir tanto quanto você. Muito bom!
Abraço!

"Palavras ao Vento..."
www.leandro-de-lira.blogspot.com

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, pela resenha eu acho que vou curti. Gosto de enredos com viagens no tempo e parece ser leve, o que até pode ser positivo no meu momento atual hehehhehee vou colocar na minha lista de leituras!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

LegalJunior disse...

Legal seu blog, top! se puder passa lá no meu, to recomeçando!

http://legaljunior.blogspot.com.br

LegalJunior disse...

to seguindo

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. A sinopse do livro é bem intrigante e fico feliz em saber que a autora estreou com uma obra bacana. Beijo!

www.newsnessa.com

Thaynara ribeiro disse...

Livros com máquinas do tempo são do tipo ame ou odeie. Pra mim depende muito da escrita e de como é apresentado ao leitor. Mesmo sem explicações maiores parece interessante e a autora conseguir fazer o leitor se questionar deve valer a pena a leitura

Alessandra Salvia disse...

Oi Mari,
Eu quero para ontem!
Amo uma viagem no tempo que emociona e te faz refletir.
Não conhecia a dica e adorei.
beijo
http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Mari!
bom ver um livro que foge do lugar comum do que andam escrevendo por aí.
Adoro livros que abordam viagem no tempo e fiquei encantada em ver que na verdade não há muita explicação porque isso acontece aqui. O foco do livro é mais voltado para as reflexões sobre a vida que o leitor pode colher e achei fenomenal.
“O saber é saber que nada se sabe. Este é a definição do verdadeiro conhecimento.” (Confúcio)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
TOP Comentarista de FEVEREIRO, livros + KIT DE MATERIAL ESCOLAR e 3 ganhadores, participem!

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Não sei o que pensar sobre esse livro. É bom saber que ele não tenta forçar algo que não pode, mas não sei se leria.
Beijos
Balaio de Babados
Promoção Quatro Anos de Minhas Escrituras

Nessa disse...

Oi Mari
Ainda não tinha visto este livro, mas o enredo dele chamou minha atenção e gosto de livros que nos fazem refletir.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Larissa Dutra disse...

Olá, tudo bem? Não conhecia esse livro ainda, mas fiquei curiosa para realizar a leitura da obra. Adorei a resenha!

Beijos,
Duas Livreiras / Sorteio literário

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Como eu adoro livros com a viagens no tempo *-* Fico imaginando o que eu mudaria na minha vida se pudesse voltar atrás e "consertar" algumas coisinhas rs...

Não conhecia a autora, mas só a premissa da história me chamou bastante a atenção. Dica anotada!

Beijos;***
Ane Reis | Blog My Dear Library.

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Gostei muito da sua resenha. O livro me pareceu muito interessante. Eu acho que poderia refletir muitos momentos da minha vida. Acho que a gente sempre tem aquela lembrança que poderia ser diferente, só que se fosse o nosso presente não seria o que é hoje e nós não seríamos o que somos hoje, certo?
Acho que tudo faz parte.

Enfim, gostei bastante e vou dar uma olhada no título assim que possível.

Bjs!!

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Juliana disse...

Amei a resenha e a premissa do livro. Todos nós temos algum momento da vida que queremos repetir ou mudar, não é?
Gostei da autora pensar fora da caixinha e criar um livro que se encaixa em tudo e ao mesmo tempo soar tão diferente.

Beijão

Livros em Contexto

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Gostei bastante de conhecer esse livro. Achei a história bem maluca mais ao mesmo tempo quem não gostaria de voltar no tempo e mudar algum fato?!! Sem dúvida é uma excelente indicação!!
Beijoss

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