domingo, 29 de janeiro de 2017

RESENHA: O Mundo Perdido

“A característica mais típica do ser humano não é a lucidez, e sim a conformidade, e o resultado típico é a guerrilha religiosa. Outros animais lutam por território ou comida; todavia, de forma única no reino animal, seres humanos lutam por suas ‘crenças’. A razão é que as crenças guiam o comportamento, o que tem importância evolucionária entre os seres humanos. Porém, em uma época em que nosso comportamento pode muito bem nos levar à extinção, não vejo motivo para presumir que tenhamos qualquer lucidez. Somos conformistas teimosos e autodestrutivos.” (CRICHTON, 2016, p. 25/26). 

***

Jurassic Park foi um dos melhores livros que li em 2016 e conquistou seu lugar no meu top 5 devido ao sucesso em mesclar ação, suspense e ficção científica, compondo um thriller impecável. Após o sucesso do livro e de sua adaptação, o autor foi pressionado para escrever uma continuação não apenas pelos fãs, mas também por Spielberg, que tinha interesse em gravar mais um filme. Infelizmente, o autor não conseguiu repetir a fórmula. 

Mesmo depois de seis anos dos eventos narrados em Jurassic Park, carcaças de animais desconhecidos continuam a aparecer no litoral da Costa Rica. Isso por que a Isla Nublar não era a única ilha onde John Hammond fazia seus experimentos para tentar reproduzir dinossauros de forma artificial. Caberá ao matemático Ian Malcon, acompanhado por um grupo de cientistas, explorar este “mundo perdido”. 

Creio que um dos fatores que mais me incomodou durante a leitura foi a quantidade de explicações que o autor fornece, especialmente sobre temas como evolução e extinção. Em Jurassic Park o autor conseguia inserir informações importantes e relevantes à trama de forma pontual ao longo da estória. O Mundo Perdido é tão recheado de informações que por vezes dá a sensação de que se está lendo um livro acadêmico. 

Os personagens não cativam, sendo que alguns conseguem apenas irritar o leitor. Jurassic Park não tinha um protagonista definido, até mesmo porque quem ocupava o papel principal na obra era o próprio parque em toda a sua magnitude e opulência. Mais uma vez Crichton optou por não escolher um protagonista, pois a estória não era exatamente sobre esse grupo de pessoas, mas sobre o mundo perdido que elas encontram. O problema é que esse contexto já não causa o mesmo impacto, afinal, o leitor já está familiarizado com o cenário, inexistindo a sensação de descobrimento que impregnava cada capítulo de Jurassic Park. Sem este elemento, a ausência de um protagonista — que conduzisse a estória e com quem o leitor pudesse desenvolver uma conexão — foi ainda mais sentida.

Considerando esse vácuo de protagonismo e a ausência de personagens cativantes, as cenas de ação simplesmente não causavam o efeito desejado. Assim, por maior que fosse o risco, eu não conseguia me importar com o que estava acontecendo, tampouco se eles conseguiriam escapar ou não das ameaças. Outro fator que merece ser pontuado é que Crichton pareceu inserir personagens juvenis apenas para tentar repetir a fórmula de sucesso. Em Jurassic Park, as crianças representam um interessante componente da obra, enquanto que em O Mundo Perdido dão a sensação de terem caído de paraquedas em uma estória que não demandava, muito menos justificava sua presença. 

Mas o pior de tudo é que não existe uma estória. A verdade é que O Mundo Perdido parece ser um livro de restos, pois aproveita um gancho promissor e um personagem interessante. Entretanto, o autor não conseguiu desenvolver de fato uma nova estória e a sensação que fica ao final da leitura é de vazio, mesmo após quase quinhentas páginas. Creio que foi por isso mesmo que Crichton pesou tanto a mão nas explicações científicas, pois era tudo o que ele tinha para a continuação. E verdade seja dita: muitas das discussões trazidas pelo autor são interessantes, mas quando me proponho a ler um livro de ficção espero, acima de tudo, encontrar uma estória de verdade. 

Assim, em todos os aspectos que Jurassic Park foi bem sucedido, O Mundo Perdido falhou. Ficou claro que o autor escreveu não por que tinha uma nova estória, mas por causa da pressão para que continuasse a escrever. 

Título: O Mundo Perdido (exemplar cedido pela editora)
Autor: Michael Crichton
N.º de páginas: 488
Editora: Aleph

16 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Alê!
Nunca fui muito fã de Jurassic Park, então essa "continuação" não me chama muito atenção.
Beijos
Balaio de Babados
Promoção Quatro Anos de Minhas Escrituras

Adriana Holanda Tavares disse...

Deve ser bem diferente ler um livro com dinossauros, nunca tive essa experiência. Acho que todos nós conhecemos Jurassic Park por conta dos filmes, que por sinal, em minha infância eu era extremamente apaixonada.
Não sabia da existência dos livros, e apesar dessa capa ser estranha, tenho certeza que a Aleph fez uma ótima edição.
Não sei se fiquei ou não interessada bem leitura, mas com certeza se eu tiver a oportunidade, irei pegar o livro para ler.
Fico feliz que a leitura tenha sido agradável para você, pena que não há mais nenhuma continuação. Ótima dica!

Ana I. J. Mercury disse...

Eu tenho curiosidade para ler Jurassic Park apesar de ser tão diferente do que estou habituada a ler, que tenho receio de não compreender.
Esse livro parece ser bem monótono, e daquelas continuações que não deram muito certo.
Acho que só o lerei, se eu gostar muito do primeiro livro.
bjss

Gabriela CZ disse...

Fiquei triste de saber que O Mundo Perdido não é tão bom assim, Alê. Mas, infelizmente, é o que acaba acontecendo quando escritores são pressionados para fazerem sequências que na verdade não querem. E a bem da verdade as sequências cinematográficas de Jurassic Park também não foram tão satisfatórias. Mas ainda quero conferir os dois livros. Ótima resenha.

Beijos!

Marta Izabel disse...

Oi, Alê!!
Sempre gostei mundo dos filmes de Jurassic Park!! É uma pena que nunca li nenhum dos livros!! Espero ainda ter a oportunidade de ler algum dia esses livros!! Que pena que o livro O Mundo Perdido não foi como você espera!! Mesmo assim a capa é maravilhosa!!
Beijoss

Rena Késsia disse...

Oii!
Não gosto muito dos filmes de Jurassic Park, muito menos li algum livro. Apesar de você ter falado que o primeiro é bom, essa resenha do segundo me fez ter certeza de que não lerei nada de Jurassic Park, não me chama atenção.

Beijos!

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Alê, poxa que pena que não é tão bom assim, mas de todas as formas vou ler ao menos Jurassic Park!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

RUDYNALVA disse...

Alê!
Infelizmente acontece mesmo essa pressão em cima do autor quando outros livros deram certo.
Até gosto das explicações científicas, mas quando surtem resultado dentro de uma estória. Mas que estória que não existiu?
Triste mesmo ver esse livro tão grande, ser tão sem conteúdo útil para ficção.
Desejo uma ótima semana!
“Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele.” (Jean-Jacques Rousseau)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Rossana Batista disse...

Poxa, que pena que o livro não foi tão bom. Eu absolutamente amo os filmes e não canso de assistir todas as vezes que passam. Acho que esse exagero de explicações realmente complicam um pouco a leitura de um livro. Que pena que não deu certo :(

Thaynara ribeiro disse...

Se tem um filme que não gosto é esse rsrs Não sei pq tenho uma birra inexplicável de dinossauro. Achei bem interessante o livro ter cara de acadêmico devido as informações

Roberta Moraes disse...

Escrever sendo forçado não é nada legal. O bom é quando tem história nova. Infelizmente esse livro não saiu como o esperado por muitos mas é bom para que os autores e os envolvidos saibam medir quando está na hora de continuar escrevendo e quando está na hora de parar.

Bruna Bento disse...

nossa, eu quero demais, DEMAIS ler Jurassic Park. E vou ler essa continuação tbm, mesmo voce nao tendo gostado tanto, pq só por saber um detalhezinho ou outro a mais já me satisfaz! haha

E fora que as edições estão tao lindaas! Espero q publiquem outros livros do autor!

A aleph vem fazendo um trabalho sensacional!

Luiza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiza disse...

Poxa uma pena não ser bom como o livro Jurassic Park que gostou tanto.
Bjs
https://eternamente-princesa.blogspot.com.br

Gêmea Má disse...

Ooi!!

Eu li o primeiro livro no ano passado e estava muito ansiosa pra ler a continuação. Veja, ainda pretendo ler, mas fico por demais chateada ao saber que o autor ficou enrolando e escreveu uma porcaria, recheada de informações desconexas e sem carisma.
Obrigada pela resenha sincera.

bjbj

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!!

Eu gostei muito de Jurassic Park também, embora não seja um dos meus favoritos. Entro na discussão dos fãs sobre os papéis femininos figurados no livro.

Mas fico chateada que O Mundo Perdido seja realmente um livro perdido. Comprei faz algum tempo esse livro, mas por falta de tempo, não consegui encaixar na minha programação de leituras ainda. Infelizmente. =/

No primeiro livro também tinha muitas explicações científicas, mas faziam sentido porque estavam nos explicando a questão do parque, né? Compreendo sua decepção. Uma pena mesmo.

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

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