quarta-feira, 23 de maio de 2018

RESENHA: Sempre vivemos no castelo

Sempre vivemos no castelo - Shirley Jackson
Quando a editora Suma de Letras lançou “Sempre vivemos no castelo”, dando início às publicações da obra de Shirley Jackson no Brasil, confesso que o nome da autora não me disse nada. Foi só ao descobrir sua influencia nas obras de autores como Stephen King (que inclusive dedica a ela o seu “A Incendiária”) e Neil Gaiman que a obra me despertou interesse.

Antigamente, o casarão dos Blackwood costumava ser o lar de muitos habitantes. Afinal, todos os membros da família acabavam indo morar lá. Mas agora ele é o refúgio apenas de Mary Katherine, sua irmã Constance e seu tio Julian. Isso porque há seis anos todo o resto da família morreu envenenado durante um jantar. Constance foi acusada pelo crime (afinal ela havia preparado a refeição e o veneno estava, justamente, em algo que ela não comia), mas mesmo tendo sido absolvida pelo tribunal, não conseguiu o mesmo por parte da comunidade. Agora, os três vivem em seu mundinho, longe de tudo e de todos o máximo possível. Até a chegada do primo Charles.

A história é narrada por Mary Katherine (a quem Constance chama, carinhosamente, de Merricat) que já revela no primeiro parágrafo, em um tom surpreendentemente despreocupado, a tragédia que se abateu sobre a família. A personagem revela também os seus 18 anos de idade. Não fosse isso, seria fácil acreditar que se trata de uma menina de 10 ou 12 anos, afinal, a voz narrativa e mesmo algumas das atitudes da protagonista são mais condizentes com uma criança. Isso, porém, é um aspecto interessante que já revela o foco psicológico do livro de Jackson. Merricat tem 18 anos hoje, mas tinha 12 quando a tragédia aconteceu e, em muitos aspectos, sua vida parou naquele momento e passou a girar em torno dele.

“Eu pensava em Charles. Poderia transformá-lo em mosquito e jogá-lo numa teia de aranha e vê-lo enredado e indefeso e se debatendo, preso no corpo de um mosquito agonizante; poderia desejar sua morte até que ele morresse. Poderia amarrá-lo a uma árvore e deixá-lo lá até que virasse tronco e a casca cobrisse sua boca. Poderia enterrá-lo na cova onde minha caixa de moedas de prata estivera segura até ele chegar; se estivesse debaixo da terra eu poderia andar sobre ele pisando forte.” (JACKSON, 2018, p. 119)

Definir a história de “Sempre Vivemos no Castelo” não é tarefa fácil. Por mais que a tragédia seja fundamental na trama, não é para saber o que aconteceu que continuamos a virar as páginas (tanto que quando isso é revelado, acredito que sejam poucos os leitores que realmente se surpreendam). Da mesma forma, os acontecimentos presentes são escassos. Assim, a constante que temos são os próprios personagens, principalmente Merricat, cujo comportamento é bastante intrigante.

Outro ponto forte é o relacionamento entre as duas irmãs. Para Merricat, Constance é todo o seu mundo. Já Constance mima a irmã mais nova como se ela se ela ainda fosse uma criança. A vida no casarão é uma bolha na qual só cabem elas duas, sem espaço nem mesmo para o tio Julian. Ele é apenas mais um sobrevivente que ficou por ali. O próprio título, a meu ver, faz uma relação a isso. Elas são as rainhas deste castelo. Sempre foi assim. Sempre será. Além disso, também vejo uma conotação de contos de fada, de delírio e de sonhos. 

Mas preciso confessar que não encontrei em “Sempre Vivemos no Castelo” a experiência que eu imaginava. Por mais que eu aprecie (e muito!) quando um autor deixa parte da história nas entrelinhas, senti falta de algo que costurasse a trama e desse forma a ela.

Outra coisa que me incomodou foi um comentário que consta na sinopse dessa edição e que me deixou encasquetada com uma revelação que estava por vir. Se era para ser surpresa, não sei, mas para mim foi óbvio desde as primeiras páginas.

“Sempre vivemos no castelo” é um livro estranho, que vale mais pelo estudo de personagem do que pela trama em si, e que, confesso, não me deixa curiosa para conferir outros livros da autora.

O livro foi adaptado para o cinema, com Taissa Farmiga no papel principal.

Título: Sempre vivemos no castelo
Autora: Shirley Jackson
N° de páginas: 200
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 19 de maio de 2018

RESENHA: Todos os Pássaros no Céu

Todos os passaros no ceu Charlie Jane Anders
Todos os Pássaros no Céu me chamou atenção pela promessa de mesclar fantasia com ficção científica. E embora o livro conte com os elementos destes gêneros, a estória não entregou exatamente o que eu esperava. 

Quando crianças, Patrícia descobre a magia, enquanto Laurence a tecnologia. Ambos são crianças excluídas e ignoradas na escola, de modo que aos poucos eles se aproximam e se tornam amigos. A amizade não resiste, mas dez anos depois eles se reencontram e o mundo está prestes a terminar em uma batalha entre a ciência e a magia. E cada um deles está de um lado do tabuleiro. 

O primeiro aspecto a ser destacado são os protagonistas. Ambos contam com famílias desestruturadas, além de enfrentarem bullying nos corredores da escola. Assim, tanto Patrícia quanto Laurence convivem com essa pesada carga emocional e buscam um futuro melhor por vivenciarem e se desenvolverem neste cenário adverso. 

Durante as primeiras cento e setenta páginas, acompanhamos os protagonistas durante sua infância/adolescência, e a sensação que tive durante esta parte da leitura foi de “mal necessário”. Ou seja, fiquei com a impressão de que para entender o cerne da estória, precisávamos conhecer tais eventos, mesmo que eles não fossem muito interessantes. O problema é que além dessa parte ser um pouco entediante, ela também peca por transmitir a ideia de um livro extremamente juvenil, sendo que posteriormente a estória assume um tom mais adulto, causando uma discrepância perceptível de estilos narrativos. Creio que se a autora tivesse optado por utilizar flashbacks, estes problemas poderiam ter sido evitados. 

“— Sabe ... não importa o que você faça, as pessoas sempre vão esperar que você seja alguém que não é. Mas se for esperta, sortuda e se ralar de trabalhar, vai se cercar de pessoas que esperam que você seja a pessoa que gostaria de ser.” (ANDERS, 2017, p. 211)

Mas o que realmente me incomodou é que, mesmo após o “mal necessário”, a estória continuou a dar a impressão de que estava patinando. Por um lado, vemos uma evolução dos personagens, sendo interessante ver como suas vidas voltam a se cruzar tantos anos depois e o impacto que causam um no outro. Entretanto, a leitura se tornou maçante por que parecia que nada estava acontecendo, inexistindo um senso de progressão da estória. Além disso, outros aspectos da estória não são convincentes o suficiente, porém, não vou entrar em detalhes para evitar spoilers. 

Outro aspecto um pouco frustrante foi a ausência de um melhor desenvolvimento do sistema mágico. Não entendemos por que, em determinados momentos, Patrícia consegue evocar magia e em outros não. Posteriormente, depois que ela frequenta a escola de magia, recebemos algumas explicações sobre o assunto, mas as mesmas são extremamente superficiais. 

No fim das contas, quando encerrei a leitura, cheguei à conclusão de que a autora não tinha uma ideia clara de qual seria a estória que desejava contar, de modo que optou por atirar para todos os lados e, evidentemente, não acertou em nenhum alvo. 

Todos os Pássaros no Céu é o típico caso de uma ideia promissora que teve uma execução fraca

Título: Todos os Pássaros no Céu
Autora: Charlie Jane Anders
N.º de páginas: 474
Editora: Morro Branco

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

RESENHA: O Colecionador

O Colecionador / John Fowles / Darkside Books
Alguns livros escolhem priorizar tensão psicológica à ação. Cenários, múltiplos personagens, reviravoltas, ritmo eletrizante...tudo isso se torna desnecessário porque a história acontece dentro de alguns poucos personagens desenvolvidos ao extremo. Esse é o caso de “O Colecionador”, livro de estreia de John Fowles, que inspirou nomes como Stephen King e Thomas Harris.

Miranda é uma bela estudante de arte. Um espírito livre. Cheia de amigos e ocasionais namorados. Tudo o que Frederick não é. Órfão, criado pela tia, um funcionário público silencioso e de poucos amigos que observa Miranda da janela do trabalho. Até que ele ganha na loteria e compra uma casa para receber uma convidada especial.

O livro se divide em quatro partes: na primeira, acompanhamos o ponto de vista de Frederick, na segunda, o de Miranda. A técnica tem sido banalizada nos últimos tempos, mas é fundamental para fazer de “O Colecionador” o livro que é. São duas histórias diferentes que mostram Fredericks e Mirandas diferentes. A narrativa dele é toda sobre Miranda. Ela é o objeto. Ela é tudo! A ação demora a comecar, mas ele é tão obcecado e o relato tão intenso, que isso não importa. Já sabemos imediatamente que ele está nos levando para dentro da sua mente e que o terreno não é saudável.

a narrativa de Miranda é sobre como ela se sente em cativeiro e, mais ainda, sobre a vida que deixou para trás. É Frederick quem está fazendo isso com ela, mas ele é pequeno diante de todo o resto que existe lá fora. Outra diferença é que o texto de Miranda é imediato, ocorre no tempo presente (afinal, trata-se de um diário), enquanto o de Frederick é um relato de coisas que já aconteceram. A terceira e quarta partes são mais breves e trazem o desfecho da história, também pelos dois pontos de vista.

"O que ela nunca entendeu foi que aquilo me bastava. Tê-la comigo era o suficiente. Nada precisava ser feito. Só queria que fosse minha, e a salvo, finalmente." (FOWLES, 2018, p. 122)

Tanto em um relato quanto em outro, percebemos que a situação é um duelo. Quem irá vencer? Miranda é atrevida e claramente mais inteligente que seu captor, mas é Frederick quem tem todas as vantagens. Sua fraqueza, porém, é a própria Miranda. Sim, ele a sequestrou. Sim, ele a mantém em cativeiro, mas em sua mente doentia ele não está dando razões para ela sofrer. Pelo contrário. Decorou a casa pensando nos gostos dela, comprou os livros que ela gosta, as roupas nas cores e estilo que ela usa. Tudo para que ela seja feliz e se sinta bem como sua hóspede. Ele está disposto a fazer tudo por ela e só o que quer é que ela o conheça, porque ele a ama. Em sua mente doentia, ela está sendo ingrata ao reagir contra suas ações.

Algo que me surpreendeu é que Frederick não é violento da maneira convencional. Ele não maltrata Miranda, física ou verbalmente. Não há perversidade em sua mente. Ele não fica excitado com o sofrimento dela, não a estupra, não faz nada do que se imagina que ele iria fazer. Isso é um dos aspectos mais perturbadores em “O Colecionador” porque ele não quer nada dela. Ele só quer ela. Tanto que não pensa nela como sua vítima e sim como sua hóspede. Ele não está a mantendo em cativeiro e sim a recebendo para uma estadia. Dessa forma, não há nada que Miranda possa fazer que lhe garanta a liberdade. Ela não pode dar a Frederick o que ele quer porque esse algo não existe. O que ele almeja é tê-la como uma das borboletas que coleciona, mas sabe que isso nunca vai acontecer. É simples e perturbador assim.

O que torna tudo pior é que os dois estão sofrendo, cada um a seu modo. Ela porque foi privada da sua vida. Ele porque foi um esquisitão a vida inteira e a única pessoa que ele ama só quer fugir dele. Sim, Frederick é o vilão, mas ele também é um coitado. Miranda é superior a ele em todos os sentidos, ela só está em desvantagem. Frederick não é perverso. A situação em que ele coloca Miranda é perversa. Ele é apenas louco e sua loucura tem uma fonte: ela. A situação toda é tão deturpada que eu cheguei a sentir pena de Frederick e me culpar por isso. É essa complexidade que torna “O Colecionador” tão interessante: uma situação infeliz para todos os envolvidos.

"É porque estou tão sozinha. Preciso olhar para um rosto inteligente. Qualquer um que tenha sido trancafiado desse jeito deve entender. Você se torna real demais para si mesmo de um jeito estranho. Como você nunca foi anteriormente." (FOWLES, 2018, p.262)

Thomas Harris confessa que não teria escrito “O Silêncio dos Inocentes” sem este livro. Stephen King não confessa, mas nem precisa: é clara a influencia de “O Colecionador” em “Misery” (dois personagens trancados em uma casa. Um vítima da obsessão do outro). Aliás, o Mestre do Terror assina o prefácio desta que é uma das edições mais bonitas já lançadas pela Darkside Books, analisando o impacto do livro na época de sua publicação, em 1963, e o quanto o leitor enriquece a sua experiência ao fazer uma segunda leitura da obra.

O desfecho da história de Frederick e Miranda é bastante verossímil. Embora eu confesse que esperava algo mais (e que até previ que era isso que me aguardava no final), também fiquei feliz com a abordagem do autor. Um livro que parte de uma situação intensa, mas a coloca em segundo plano, já que os holofotes estão o tempo todo apontados para o personagens. Simples em acontecimentos, complexo e perturbador em todo o resto.

Título: O Colecionador
Autor: John Fowles
N° de páginas: 256
Editora: Darkside Books
Exemplar cedido pela editora 

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terça-feira, 15 de maio de 2018

[Histórias de Adolescentes] para quem não gosta de [Histórias de Adolescentes]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Nem todo leitor gosta de livros protagonizados por adolescentes. Talvez porque a maioria deles envolva intrigas românticas e corredores de colégio. Mas nessa coluna selecionamos três livros que vão fazer você mudar de ideia sobre os jovens. 
Ok, a lista abre trapaceando um pouquinho. Não são exatamente adolescentes, mas sim crianças de 5 a 13 anos. Mas, acredite, são tantas as interpretações para a história desse grupo de meninos que sobrevive a um acidente de avião e passa a viver como selvagens em uma ilha deserta, que o menos importante é a idade deles. Ao seguir seus instintos mais primitivos, eles se assemelham mais a adultos inescrupulosos e violentos do que a crianças inocentes em idade escolar. Uma história atemporal que rende inúmeras interpretações (e resenhas gigantescas!), seja pelo ângulo político, religioso, filosófico ou, simplesmente, literário.


Precisamos falar sobre o Kevin

Minha melhor leitura de 2016 é um livro para aqueles de estômago forte. Sim, Kevin é um adolescente. Sim, o cenário de suas ações são os corredores da escola. Mas a esperança de que Kevin seja um adolescente normal pára por aqui. Nessa história, sua mãe avalia toda a trajetoria de vida do filho que, aos 16 anos, abriu fogo no colégio, matando 9 pessoas. Um dos personagens mais essencialmente perversos que já conheci, Kevin protagoniza uma história chocante e inesquecível. Para quem gosta de um bom thriller e não tem medo de se decepcionar com a humanidade.

Laranja Mecânica

Este clássico distópico, que inspirou o filme homônimo de Stanley Kubrick, conta a história de Alex: o cabeça de uma gangue de adolescentes que comete atos de violência aleatórios. Estupros e roubos são a maneira como se divertem noite após noite, até que Alex é preso e passa por um tratamento para deixá-lo avesso à maldade, experimentando outro tipo de violencia. Indo além da história que está sendo contada, há também o impacto do Nadsat, lingua utilizada por Alex e seus amigos, que a princípio causa estranhamento e confusão, mas posteriormente nos faz sentir parte daquele mundo. Uma leitura densa que leva o leitor a refletir sobre a sociedade em que vivemos, o que aceitamos, as escolhas que fazemos e os fins que, nem sempre, justificam os meios.






sábado, 12 de maio de 2018

RESENHA: A Incendiária

A Incendiária Stephen King
Durante a faculdade, Andy e Vicky participam de um experimento científico promovido pelo governo americano e acabam desenvolvendo poderes psíquicos. Anos depois nasce Charlie, a filha do casal, e desde pequena ela demonstra ter herdado a pirocinese, a capacidade de criar fogo. Quando o governo descobre os poderes de Charlie, tem início uma caçada implacável e para sobreviver, pai e filha terão que fazer tudo o que estiver ao seu alcance. 

A Incendiária prende a atenção do leitor logo nas primeiras páginas, pois acompanhamos a fuga desesperada de Andy e Charlie de agentes do governo. Mesmo sem entender todas as nuances do que está acontecendo, King vai fornecendo aos poucos as respostas que o leitor deseja. Assim, o cerne da estória gira em torno da perseguição e do desenvolvimento dos poderes de Charlie. 

Charlie é uma personagem incrivelmente bem construída. Com sete anos, ela possui um poder poderoso, o qual não sabe controlar, mas que se vê obrigada a usá-lo para poder sobreviver. Ao longo do livro, vemos como as situações a que é submetida acarretam na perda da inocência e em um amadurecimento forçado

Já falamos diversas vezes por aqui como King utiliza elementos sobrenaturais que servem de gatilho para mostrar reações essencialmente humanas. Assim, os poderes psíquicos de Andy e Charlie servem como esse gatilho, colocando a trama em movimento e revelando emoções como medo, impotência e desespero. 

“— Nunca — repetiu ela com ênfase discreta.
— É melhor não falar isso, gatinha — disse Irv, olhando para ela. — É melhor não se bloquear assim. Você vai fazer o que precisa fazer. Vai fazer o melhor que puder. E isso é tudo o que pode fazer. Eu acredito que o Deus deste mundo adora dar trabalho para as pessoas que dizem “nunca”. Entendeu?”
(KING, 2018, p. 143)

O livro é narrado em terceira pessoa com alternância do ponto de vista. Assim, vemos a estória se desenvolver tanto a partir do olhar de Andy e Charlie, como do ponto de vista de agentes do governo que desejam colocar as mãos no pai e na filha. Neste ponto, saliento também que me pareceu que o autor perdeu um pouco do controle sobre a narrativa, especialmente da metade para o final, pois algumas informações me pareciam irrelevantes para o desenvolvimento da estória. 

Entre os agentes do governo, alguns deles ganham destaque e preciso confessar que é neste aspecto que me decepcionei. Um destes personagens acaba desenvolvendo uma obsessão doentia por Charlie, a qual, a meu ver, parece completamente injustificada. Ao final do livro, tal personagem desempenha um papel necessário para o desfecho da estória, de modo que fiquei com a sensação de que ele foi inserido na estória por que tinha esta função para cumprir. Ou seja, a obsessão dele me pareceu apenas uma desculpa para sua presença na estória, e não algo natural e verossímil. 

Ainda assim, A Incendiária foi uma excelente leitura, que misturou nas doses certas thriller e ficção científica. Com um ritmo intenso, que mal deixa o leitor respirar e muito menos largar o livro, King mostra mais uma vez seu talento inquestionável como contador de estórias. 

Título: A Indenciária
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 447
Editora: Suma
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 8 de maio de 2018

RESENHA: O Clube dos Oito

O Clube dos Oito / Daniel Handler
Uma história que não conseguimos definir se é sobre um crime chocante e terrível ou se é sobre a vida adolescente em um colégio onde nada deve ser levado tão a sério. Bem vindo a “O Clube dos Oito”.

Flannery Culp quer contar a sua história. Sim, ela está presa por ter assassinado um dos seus colegas de escola (o rapaz para quem ela passou o verão todo escrevendo cartas e declarações de amor), mas isso não quer dizer que sua versão não mereça ser ouvida, ainda mais que alguns ditos “especialistas” estão o tempo todo na TV dissecando o comportamento dela e, no geral, falando apenas besteiras sobre ela e seus amigos.

Nas primeiras páginas de “O Clube dos Oito” Flannery já confessa que está reescrevendo o diário que manteve nos meses que antecederam o assassinato e também que se considera uma escritora. Assim, já sabemos que ela não é confiável por estar contando sua própria versão dos fatos e também por estar lapidando as anotações que fez na época, em vista da sua atual situação, e ainda pela dose de liberdade criativa que pode haver em sua narrativa. E nada como uma narradora não-confiável para deixar um leitor com a pulga atrás da orelha.

Outra coisa da qual já temos conhecimento desde o início é do crime em questão. Sabemos quem será assassinado, sabemos quem é o assassino e também sabemos que Flannery está presa no momento em que conta a história, então não há mistério envolvido e também não adianta torcer por ela ou imaginar se escapará impune. Dessa forma, “O Clube dos Oito” se torna um daqueles livros em que o importante não é encontrar respostas e sim ver as coisas se desenrolarem para entender o contexto no qual o crime se deu.

“No canto dos olhos e no alto da minha cabeça, eu sentia o peso de todos os meus amigos, enraivecidos e esgotados por algo que eu tinha feito e que não fazia nem ideia do que poderia ser.” (HANDLER, 2018, 357)

Em um livro em que as respostas parecem estar evidentes desde o início, Handler guarda uma revelação para o final. Essa, evidentemente, tem a intenção de surpreender, de revirar a mente do leitor, mas para mim não teve esse efeito, mesmo que eu não tivesse desconfiado daquilo. O problema é que Handler usa um recurso já utilizado em outras tramas e que teria tudo para funcionar, mas soa totalmente gratuito e pouco importante para a maneira como a história se desenrola. Deveria mudar a maneira como lemos tudo até ali, mas o que me provocou foi um “Sério? Ok, então.”

Vejo “O Clube dos Oito” mais como uma história sobre corredores de colégio do que uma sobre crime. O problema é que ao tentar ser as duas coisas, o livro não conseguiu ser nenhuma das duas satisfatoriamente. A narrativa é fluida e até irônica em alguns momentos, há intrigas e personagens dúbios para todos os lados, mas tudo está ali apenas como uma paisagem da qual não participamos. Não sentimos o cheiro, nem a brisa, apenas vemos uma imagem. Em resumo, o livro não cativa.

A protagonista cometeu um assassinato – algo extremamente intenso – e ainda assim eu não consegui ter sentimento nenhum por ela – nem de empatia nem de antipatia -, não consegui torcer contra nem a favor. Além disso, há algumas situações (como a do professor de biologia) que parecem inseridas na história para cumprir uma função que simplesmente não cumprem (e não fica claro qual função seria essa). Além de tudo, o contexto em que o crime se dá é ridiculamente banal. A prova de que achei a história falha em desenvolvimento é que, faltando umas 40 páginas para o desfecho, me ocorreu que talvez se tratasse do primeiro livro de uma série.

É uma pena porque Flannery tinha tudo para ser uma boa personagem (perturbadora até) e seus amigos deveriam ser interessantes (se não pelo que são nos corredores do colégio, pelo que decidem fazer para ajudar a amiga), mas acabam se resumindo a um bando de adolescentes. Um mero “Clube dos Oito”.

Daniel Handler é também conhecido pelo pseudônimo Lemony Snicket, autor das séries “Só Perguntas Erradas” (com a qual eu já tive o prazer de me divertir) e “Desventuras em Série”, mas seu livro de estreia parece justamente isso: um livro de estreia, que me deixou com a terrível sensação de entender os acontecimentos da história, mas não entender qual era a história que o autor pretendia contar.

Título: O Clube dos Oito
Autor: Daniel Handler
N° de páginas: 399
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 6 de maio de 2018

RESENHA: Kindred - Laços de Sangue

Kindred Octavia Butler
Em seu aniversário de 26 anos, Dana e seu marido estão de mudança. Enquanto organizam o novo lar, ela sente uma tontura e de repente se vê à beira de um rio. Quando enxerga uma criança se afogando, ela não pensa duas vezes e mergulha na água para salvá-la. Mas assim que a arrasta para fora do rio, encontra um homem apontando uma espingarda para seu rosto. Antes de ter tempo para reagir, Dana está de volta ao apartamento, encharcada e sem acreditar no que aconteceu. Até que acontece de novo e ela descobre ter voltado para uma Maryland pré-Guerra Civil, um lugar perigoso para uma mulher negra. 

Kindred é narrado em primeira pessoa por Dana e logo nos afeiçoamos a protagonista, sentindo na pele o horror de ser levado para uma realidade de subserviência, violência e nenhum direito. Por mais que tenhamos conhecimento teórico sobre o que aconteceu durante aquele período, Octavia Butler consegue pintar uma imagem muito mais real, vívida e assustadora

Mas além de Dana, outro personagem se destaca: Rufus, a criança que Dana salvou e que reencontra em diferentes estágios da vida toda vez que volta no tempo. Suas vidas estão profundamente entrelaçadas, porém, eles ainda são pessoas de mundos diferentes. Por mais que Rufus reconheça a inteligência de Dana e a respeite à sua maneira, ele ainda a enxerga como alguém inferior por causa de sua raça. 

Desse modo, o relacionamento entre os dois é repleto de conflitos. Por mais que Dana tente mudar a visão de Rufus, ele ainda é um homem do século XIX e, portanto, reflete o mesmo pensamento daquela sociedade, o que é acentuado por sua personalidade forte. É justamente a partir desses conflitos que Butler consegue fazer o leitor refletir profundamente sobre temas como escravidão, justiça, preconceito, poder e liberdade. 

“A escravidão era um processo que matava pouco a pouco”. (BUTLER, 2017, p. 297)

O texto Butler é extremamente envolvente, de modo que a leitura se torna uma experiência imersiva. Fazia tempo que um livro não me deixava tão vidrado na estória, pois até mesmo nos momentos em que eu estava ocupado com outras atividades, me pegava refletindo sobre Dana e os rumos da estória. 

Apesar da premissa da viagem no tempo ser um elemento clássico da ficção científica, a meu ver o livro é, acima de tudo, um drama. Isso por que o cerne da estória diz respeito ao impacto que os personagens causam uns aos outros e como suas vidas são drasticamente alteradas por causa daquele acontecimento. Ou seja, os leitores que gostam de todos os pingos nos is podem se sentir um pouco frustrados pela falta de explicações mais aprofundadas sobre as viagens no tempo. 

Se precisasse definir Kindred em uma palavra eu escolheria “perturbador”. Isso por que a obra é como um soco no estômago, que não apenas nos faz refletir e questionar o mundo que nos cerca, mas que também emociona. Sem sombra de dúvidas, esta foi uma das melhores leituras do ano e garantiu a Octavia Butler um lugar na categoria de autores que eu confio de olhos fechados. 

A boa notícia é que a Editora Morro Branco lança ainda em maio “A Parábola do Semeador”, o primeiro volume da duologia “Earthseed”. 

Título: Kindred – Laços de Sangue
Autora: Octavia E. Butler
N.º de páginas: 424
Editora: Morro Branco

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