segunda-feira, 19 de junho de 2017

RESENHA: Foi Apenas um Sonho

“Porque é preciso um pouco de coragem pra enxergar o vazio, mas é preciso muito mais pra enxergar o desespero. E acho que, quando a gente enxerga o desespero, a única opção é mesmo cair fora. Pra quem pode.” (YATES, 2009, p. 178)

Na época em que assisti o filme inspirado em “Foi apenas um sonho”, eu não sabia que havia um livro por trás do roteiro. Quando descobri, fiquei imediatamente interessada, mas protelei a leitura por anos, lendo a prova no site da editora inúmeras vezes, sem nunca ficar cativada a ponto de me convencer a ler, mas também sem me desapontar a ponto de eu desistir. E ainda bem que eu insisti porque existem poucos livros como “Foi apenas um sonho”. Livros humanos, acima de tudo.

Na década de 60, Frank e April Wheeler são um jovem casal suburbano, embora tenham jurado para si mesmos que jamais seriam como seus vizinhos desinteressantes. Porém, dois filhos que chegaram cedo demais tornaram April uma dona de casa infeliz e entediada e um emprego desprezível tornaram Frank um homem preso em uma rotina que detesta. Quando os dias se acumulam, o mais difícil para os dois é chegar feliz ao final da noite.

Há poesia nas palavras de Yates que fazem de sua narrativa em terceira pessoa um texto intenso e delicado ao mesmo tempo (exatamente como a trama), nos conduzindo calmamente pela vida conjugal de casal infeliz e acomodado que vem se obrigando a reconhecer que nada do que eles sonharam para as suas vidas está acontecendo. Eles estão se tornando pessoas que não gostariam de ser e já não sabem como mudar isso.

Os diálogos também merecem destaque. Não são apenas palavras saindo da boca dos personagens e sim uma enxurrada de desprezo, frustração, ódio, mágoa, angústia, desespero e euforia que revelam essa tristeza constante que aos poucos descobrimos que eles sentem.

Esse é um livro que poderia facilmente dar errado, afinal, não há grandes acontecimentos e os protagonistas não são exatamente carismáticos (na verdade, é mais fácil listar defeitos, tanto em April quanto em Frank, do que encontrar qualidades neles), mas funciona justamente porque se alimenta do cotidiano, algo com que qualquer leitor é capaz de se identificar. Nos reconhecemos nos protagonistas, em suas frustrações. Às vezes elas não têm causa. É só cansaço da forma que a vida adquiriu. Não é possível apontar que os personagens tenham cometido um erro aqui, tomado uma decisão ruim ali e que a causa dos seus problemas seja essa ou aquela, pois se trata de um acúmulo de coisas. Não é que algo tenha acontecido. A vida aconteceu. Simples assim. Não há nada de especial em Frank e em April e é isso o que os torna tão especiais como personagens.

Aos poucos, a narrativa intercala o presente com lembranças do passado (que fazem com que o presente pareça ainda mais amargo). A verdade é que os personagens são tão infelizes que não sabemos se vale a pena torcer para que fiquem juntos e encontrem uma maneira de resolver seus problemas, até porque, não se trata de um casal com problemas e sim de duas pessoas problemáticas que compartilham a vida. Nem Frank nem April tiveram a chance de descobrir quem são, o que querem, o que gostam. Apenas deixaram a vida acontecer. E é por isso que nada consegue satisfazê-los, nem mesmo um ao outro.

Nick Horby e Kurt Vonnegut comparam “Foi apenas um sonho” a “O Grande Gatsby” e de fato é possível reconhecer no livro de Yates o retrato de uma geração, assim como podemos observar o mesmo no livro de Fitzgerald (em um, a geração que testemunhou a Primeira Guerra Mundial, no outro, a Segunda). Mas enquanto em “Gatsby” as festas e a opulência tentam disfarçar a melancolia e o vazio daqueles personagens inesquecíveis, em “Foi apenas um sonho” há apenas o vazio e uma total falta de noção de como preenche-lo. Inclusive, não é apenas o casal que merece atenção. Através da secretária de Frank vemos as mulheres dando os primeiros passos rumo à liberdade sexual, através do vizinho secretamente apaixonado por April vemos o quanto o casamento podia aprisionar as pessoas em uma época em que as mulheres ainda pareciam ter a função de servir aos homens.

Tenho um especial apreço por livros que se revelam simples quando analisamos suas tramas, mas que são extremamente intensos durante toda a leitura. Livros que priorizam bons personagens acima de tudo e que se preocupam em entregar um texto que não apenas desenha cenas para o leitor, mas que em alguns momentos o obriga a interromper a leitura apenas para ler novamente um parágrafo e apreciar sua intensidade e beleza. Por tudo isso, fiquei absolutamente encantada com “Foi apenas um sonho”. A única coisa que lamento foi ter assistido o filme antes, pois desde as primeiras páginas eu sabia o desfecho que me aguardava e isso, certamente, diminuiu seu impacto, embora não tenha diminuído em nada o meu envolvimento. Um livro sensível e melancólico que carrega o tipo de história que o leitor nunca esquece.

O tempo que levei para, finalmente, pegar esse livro em mãos, certamente não irei repetir para outros livros de Richard Yates.

Título: Foi apenas um sonho
Autor: Richard Yates
N° de páginas: 312
Editora: Alfaguara
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 16 de junho de 2017

RESENHA: Fera

“— Na maior parte do tempo consigo bloquear esse tipo de pensamento. Fico irritada e tal, mas o tanque emocional aguenta até certo ponto, sabe? Às vezes não tenho vontade de conversar. Porque quando converso sempre sinto como se estivesse me defendendo, e já estou cansada de pedir permissão para existir. [...]. Tudo fica ainda pior porque gosto de mim mesma e do meu corpo, então quando alguém vem me falar merda, sinto como se tivesse que recomeçar do zero. Você não faz ideia do que é ter que lidar com pessoas que vêm me pergunta o que eu sou. Tipo, qual é a resposta pra uma pergunta dessas?” (SPANGLER, 2017, p. 275).

***

Dylan é um garoto de quinze anos com quase dois metros de altura e com muitos pelos no corpo, o que lhe rendeu o apelido de Fera. Ele conhece Jamie, uma garota bonita e inteligente, em uma sessão de terapia e aos poucos surge uma conexão entre eles. Mas quando Dylan descobre que Jamie é transgênera, terá que decidir se irá esconder seus sentimentos ou lutar contra seu próprio preconceito. 

A primeira observação que preciso fazer é que apesar da estória ter sido claramente inspirada em A Bela e A Fera, garanto que Fera vai muito além de sua fonte de inspiração, visto que a obra de Brie Spangler não se limitou a dar um toque moderno ao clássico filme da Disney. A verdade é que as estórias podem até partir de um mesmo ponto, mas a partir daí tomam caminhos diferentes. 

A narrativa em primeira pessoa mostra o ponto de vista de Dylan, de modo que o leitor tem um contato muito próximo com o protagonista, entendendo exatamente quais são seus pensamentos e emoções, bem como o que motiva suas atitudes. É preciso registrar que o texto de Spangler é extremamente fluído e envolvente, sendo que no primeiro dia li mais de cem páginas sem nem perceber. 

Dylan e Jamie são personagens multifacetados e bem desenvolvidos, sendo que a evolução deles ao longo da estória é palpável. Ambos são julgados e sofrem preconceito apenas por serem quem são e deste contexto Spangler propõe diversas reflexões. Outro acerto da autora foi mostrar a reação de outros personagens — como a mãe de Dylan e seu melhor amigo — diante do envolvimento de Dylan e Jamie. E assim como no mundo real, Spangler não criou mocinhos e vilões, mas pessoas com qualidades e defeitos. 

Ao contrário da maioria dos livros com personagens LGBT, Fera tem o diferencial de que Jamie já se aceita como é, estando de bem consigo mesma, sendo que sua luta agora é com o mundo exterior, que muitas vezes não a entende, tampouco aceita. Assim, o enfoque do livro está no processo de aceitação de Dylan, que não sabe como reagir a situação, sentindo-se confuso e perdido. 

Evidentemente, o livro traz algumas discussões a respeito de orientação sexual e, principalmente, identidade de gênero. Este foi o primeiro livro que li que apresentava um personagem transgênero e achei que a autora conseguiu expor com maestria as dificuldades com as quais tais pessoas lutam. Creio que para quem é cisgênero — ou seja, aqueles que se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascer — é muito difícil imaginar o quanto as pessoas trans sofrem e justamente por isso é tão fácil julgar e ser preconceituoso. 

Fera conta com bons personagens, narrativa envolvente, uma estória original e, acima de tudo, com profundas reflexões sobre os mais diversos temas. Além de uma excelente leitura, creio que Fera é o tipo de livro necessário para abrir a mente das pessoas e tornar o mundo mais tolerante. 

Título: Fera
Autora: Brie Spangler
N.º de páginas: 384
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 14 de junho de 2017

RESENHA: Resistência

“Eu cochichei para ele, disse que não podia ser assim, ele morrer ali. Se você tiver que morrer, implorei, não morra quando eu estiver olhando, e se tiver de fazer isso quando eu estiver olhando, faça quando eu não estiver sentindo.” (KONAR, 2017, p. 173)

Muito já se escreveu sobre a Segunda Guerra Mundial e os horrores do Holocausto e muito se continuará escrevendo. “Resistência” atraiu o meu interesse por prometer uma história sensível em meio a um cenário tão cruel.

As gêmeas Stasha e Pearl tem 12 anos quando são levadas para Auschwitz para viverem no que é conhecido como “Zoológico”: um lugar onde o terrível Josef Mengele conduz experimentos em gêmeos, anões, albinos, entre outros, para provar a suposta superioridade da raça ariana. Até que uma noite, em meio a um concerto, Pearl desaparece e Stasha passa a dedicar sua vida a encontrar a irmã ou a vingar a sua morte.

Acredito que não seja surpresa o tipo de acontecimentos que podemos encontrar nas páginas de “Resistência”. Ainda assim, é impossível não se sentir tocado pelos horrores aos quais as gêmeas e os outros personagens são submetidos. Por mais que já tenhamos ouvido, lido, assistido e estudado o que se passou nos campos de concentração, nenhum ser humano normal consegue conceber certas coisas que aconteceram lá e que são descritas ao longo do livro, muitas vezes fazendo o leitor sentir na pele aqueles horrores. Parte dessa intensidade vem do fato de que, para compor a trama, a autora se baseou na história real das irmãs Eva e Miriam Mozes, vítimas de Mengele em Auschwitz.

Apesar de explorar esses episódios, “Resistência” não é sobre os horrores dos campos de concentração e sim sobre os laços entre as irmãs, sobre o amor e a ligação que as une. Mesmo tendo personalidades bem diferentes (Stasha é mais sonhadora, enquanto Pearl é mais realista) as duas se completam. Isso, inclusive, se reflete na narrativa. A história é contada sempre em primeira pessoa - tanto pelo ponto de vista de Stasha como pelo de Pearl – e algo que normalmente me incomodaria é que a narrativa das duas é bastante parecida, mas, nesse caso, acredito que isso seja proposital para mostrar o quanto as gêmeas se sentem como sendo uma só, como uma sendo a extensão da outra.

E por falar em narrativa, o que torna “Resistência” um livro especial é justamente a narrativa de Konar. A beleza e a delicadeza do texto são impressionantes, principalmente levando em consideração o conteúdo que está sendo narrado. A autora não alivia, mas ao mesmo tempo presenteia o leitor com parágrafos encantadores, mesmo na crueldade. Não é transformar em belo o horror. Não é ver beleza em meio ao sofrimento. É simplesmente saber manipular as palavras de forma a conseguir empregar sentimentos puros e simples em uma situação extrema e complexa. Com muitas figuras de linguagem, frases simples repletas de significados fortes, “Resistência” é poesia pura em alguns momentos.

Gradativamente, vemos o quanto as meninas são obrigadas a mudar e o quanto a ligação que existe entre elas, mesmo à distância, é o que faz com que tentem preserver a sanidade e a essência.

É difícil eu manter o interesse em um livro quando não consigo me dedicar à leitura, mas “Resistência” conseguiu esse feito mesmo que durante uma semana inteira o máximo que eu conseguisse ler fossem 20 páginas diárias.

“Resistência” me surpreendeu positivamente. Eu esperava uma história intensa, talvez até melodramática em alguns momentos, mas fiquei encantada com o que encontrei. Livro de estreia de Affinity Konar - descrito como “brutalmente belo” pelo Publishers Weekly, que ainda afirma que “a autora faz cada parágrafo valer a pena” – certamente mostra que sua autora é um nome promissor da literatura americana. Intenso, delicado, horrível, belo. Encantador.

Título: Resistência
Autora: Affinity Konar
N° de páginas: 320
Editora: Fábrica 231
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 11 de junho de 2017

RESENHA: O que o inferno não é

“— O que você está querendo dizer?
— Que os loucos são os que amam. Você sempre pode amar, este é o paraíso. Enquanto não tirarem de você a capacidade de amar, Federico, sempre poderá fazer alguma coisa. O inferno é perder também a liberdade de amar.” (D’AVENIA, 2017, p. 144)

***

Desde que li Branca como o leite, vermelha como o sangue tenho curiosidade de conferir outro livro do autor italiano Alessandro D’Avenia. Assim, quando O que o inferno não é foi lançado, não tive dúvidas de que precisava conferir a obra. 

Federico está de férias e prestes a embarcar em uma viagem para estudar em Londres quando é convidado pelo padre Pino, seu professor de religião, para ajudá-lo com as crianças em um bairro pobre. Federico se assusta com a realidade que encontra e quando conhece Lucia, uma garota de sua idade, se sente desafiado a tentar fazer alguma diferença naquele lugar desolador. 

Logo no segundo capítulo, D’Avenia já surpreende o leitor com uma cena particularmente tocante e de doer o coração, mostrando como a violência cria cicatrizes profundas em nossas almas. E é justamente a partir do desenvolvimento deste contexto de violência e desesperança que o autor consegue provocar diversas reflexões ao longo da estória. 

O texto de D’Avenia é profundo, impactante e poético. Entretanto, creio que o autor abusou de metáforas, pois havia momentos em que a estória parecia ficar em segundo plano apenas para que tal recurso fosse utilizado. Não me entenda mal: as metáforas eram significativas, porém, a utilização excessiva não apenas tornou o ritmo da estória mais vagaroso, mas também deixou certos trechos da leitura monótonos. 

O livro é composto por capítulos alternados entre o ponto de vista de Federico, em primeira pessoa, e dos demais personagens, em terceira pessoa. Embora eu até entenda a opção do autor, creio que tal abordagem resultou em uma estória muito pulverizada. Assim, ao tentar contar um pouco da estória de cada um, D’Avenia não conseguiu ir muito além da superfície. 

Mas o principal problema de O que o inferno não é diz respeito a quantidade de clichês: o amor impossível à la Romeu e Julieta, o código de honra da Máfia, o padre bondoso que tenta ajudar a todos e se posiciona contra os mafiosos, entre outros. Não tenho problemas com o uso moderado de clichês, desde que o autor saiba como explorá-los, mas, infelizmente, este não foi o caso. 

Como romance de formação, o livro entrega o que promete, pois vemos inicialmente Federico perdido e sem saber o que fazer da vida, sendo que acompanhamos seu amadurecimento e a formação de seu caráter no decorrer da estória.

O que o inferno não é conta com reflexões profundas e impactantes, mas deixa a desejar em outros aspectos. Admito que estava com grandes expectativas por causa da minha experiência de leitura com Branca como o leite, vermelha como o sangue e talvez justamente por isso tenha ficado com um gostinho de decepção. 

Título: O que o inferno não é
Autor: Alessandro D’Avenia
N.º de páginas: 382
Editora: Bertrand Brasil
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

RESENHA: Rastros de Sangue

“ - Que estejamos há muito tempo no céu antes que o diabo perceba que a gente já foi embora.” (McDERMID, 2017, p.140)

Há anos, em uma época em que eu devorava quase todas as tramas policiais que surgiam na minha frente, li um livro de Val McDermid e gostei, embora não tenha sido marcante a ponto de eu me tornar fã. Tanto que apenas agora tive minha segunda aventura com a autora.

O psicólogo forense Tony Hill está criando uma nova força tarefa especializada em traçar perfis psicológicos dos criminosos, mas terá um grande desafio pela frente já que muitos policiais não levam a sério o seu trabalho. Em meio aos exercícios de treinamento, uma jovem policial encontra um elemento comum entre desaparecimentos de adolescentes nunca relacionados antes: todas as meninas estiveram próximas a Jacko Vance, um famoso apresentador de televisão, dedicado a causas sociais. Quando essa policial aparece morta, a equipe percebe que a teoria absurda que ela havia elaborado talvez não fosse tão absurda assim. Para resolver o caso, Tony irá contar com a ajuda de Carol, a detetive com quem trabalhou em um caso anterior e de quem tem tentado se manter afastado.  

“Rastros de Sangue” é o segundo livro da série protagonizada pelo psicólogo forense Tony Hill e a detetive Carol Jordan. Há algumas menções ao caso anterior, em especial ao trauma sofrido por Tony, mas nada que interfira nesta trama ou mesmo dê spoilers da que a antecede. Outra coisa que podemos perceber é que paira um romance entre os dois protagonistas.

A trama se constrói em duas linhas de investigação, a principal sendo a formação da equipe especializada em perfis psicológicos, que levará à descoberta do caso das meninas desaparecidas que, por sua vez, levará à caçada de Jacko Vance. A secundária, encabeçada por Carol, é a investigação de uma série de incêndios criminosos. Devo dizer que essa segunda trama me pareceu desnecessária, apenas para justificar que Carol e Tony não estivessem trabalhando juntos no começo.

McDermid adota uma opção arriscada: sabemos desde o primeiro capítulo que Vance é o assassino das meninas (na verdade, estamos na frente da polícia que, até então, nem sabe que tal assassino existe). Dessa forma, a expectativa do leitor não é descobrir respostas e sim ver se a polícia vai conseguir encontrar as respostas que ele mesmo já tem e se conseguirá pegar o criminoso. É um livro que se faz totalmente pela jornada. Ao mesmo tempo em que acompanhamos a polícia, acompanhamos também Vance e, aos poucos, temos vislumbres de seu passado e de sua mente doentia (sempre através da narrativa em terceira pessoa).

Mas, apesar de perverso, Jacko Vance está longe de ser um vilão memorável, assim como Tony e Carol estão ali para conduzir a trama policial, não para serem as estrelas dela. É o tipo de história em que os personagens servem à trama, não o contrário (como acontece com os livros da série Harry Hole, por exemplo), o que não é uma falha, mas faz com que, com base em apenas um livro, o leitor não se sinta cativado pelos personagens, embora simpatize com eles.

“Rastros de Sangue” é um livro correto. Não cria expectativas exageradas, nem reviravoltas de tirar o folego. Não decepciona, mas também não entrega mais do que promete. Conta com personagens construídos na medida que a trama necessita deles, se mantém com um bom ritmo do início ao fim e mantém o interesse do leitor durante a jornada. O desfecho deixa um gostinho agridoce, de certa forma ousado por parte da autora ou talvez até promissor para livros futuros. Não é uma obra extraordinária, mas se você gosta do gênero não tem porque não gostar da leitura.

É uma pena que a edição conte com vários erros de revisão.

O livro, lançado em 1997, originou uma série de TV britânica ("Wire in the Blood") que teve 6 temporadas exibidas entre 2002 e 2008.

Título: Rastros de Sangue
Autora: Val McDermid
N° de páginas: 433
Editora: Bertrand
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 6 de junho de 2017

RESENHA: Deuses Americanos

— [...]. Pouco tempo depois, nosso povo nos abandonou, passou a nos tratar apenas como criaturas do Velho Mundo, como algo que não os havia acompanhado até sua nova vida. Nossos verdadeiros fiéis morreram ou pararam de acreditar, e nós, perdidos, assustados e desemparados, fomos obrigados a sobreviver com qualquer resquício de adoração e fé que encontrássemos. E a sobreviver da melhor forma possível.” (GAIMAN, 2016, p. 140). 

***

Neil Gaiman é um dos autores mais renomados da atualidade e suas obras colecionam prêmios, além de encantar público e crítica. Neste ano, um de seus livros mais aclamados, Deuses Americanos, deu origem ao seriado American Gods e o trailer me deixou com a convicção de precisava ler a obra o quanto antes. 

Shadow está prestes a ser libertado da prisão e tudo o que deseja é reencontrar sua esposa, Laura. Porém, ela se envolve em um acidente de carro e por causa do funeral, Shadow é solto com antecedência. A caminho de casa, ele conhece Wednesday, um homem misterioso que lhe oferece um emprego. Assim, os dois partem em uma viagem pelos Estados Unidos, na qual Shadow descobrirá que deuses são reais e que uma batalha pelo poder de não ser esquecido está para começar. 

A premissa do livro é fantástica, original e extremamente criativa. Gaiman nos mostra novas facetas de deuses conhecidos da mitologia e também nos faz perceber quais são os deuses do século XXI: a televisão, o dinheiro e a tecnologia. O embate entre eles poderia ter sido épico, mas infelizmente não foi. Isso por que nem só de uma boa premissa é feito um livro e, a meu ver, Gaiman falhou na execução. 

O primeiro ponto que me causou muito estranhamento foi a apatia do protagonista. Sim, eu entendo que Shadow passou por um evento traumático e que ele tem dificuldade em lidar com seus sentimentos. Mas seu envolvimento com Wednesday o leva por uma estrada repleta de ocorrências sobrenaturais e o personagem parece aceitar todos elas, por mais bizarras que sejam, sem o menor sinal de descrença ou dúvida. 

Mas o calcanhar de Aquiles de Deuses Americanos certamente é a falta de acontecimentos. Shadow e Wednesday partem em uma espécie de road trip para aliciar deuses para a batalha e mais da metade do livro se limita a isso: Shadow conhecendo e interagindo com deuses, porém, não há um efetivo desenvolvimento da trama. Assim, por páginas e mais páginas, Gaiman apenas patina na estória, prometendo uma batalha épica mas nunca chegando lá. E quando um livro tem mais de quinhentas páginas, a ausência de agilidade não apenas é sentida com intensidade, mas também torna a leitura monótona e frustrante. Sinceramente, creio que a estória de Deuses Americanos não precisava de mais de trezentas páginas para ser contada. 

Outro fator que me incomodou foi o fato de Gaiman dedicar alguns capítulos para apresentar deuses antigos e mostrar como eles levam suas vidas no novo mundo. Tratam-se de estórias interessantes e de personagens riquíssimos, os quais, todavia, não são explorados, visto que seus caminhos não cruzam com o do protagonista. Então, se eles não fariam parte da estória, exatamente qual a necessidade de introduzi-los? 

O desfecho é previsível de um lado, mas extremamente surpreendente de outro. É preciso admitir que a trama criada por Gaiman é absolutamente genial, sendo que nunca passou pela minha mente o caminho que o autor iria seguir. Entretanto, após uma leitura tão arrastada, não houve genialidade que pudesse salvar o livro. 

Deuses Americanos foi uma leitura frustrante. Isso por que Gaiman tinha absolutamente tudo em mãos: uma premissa incrível, bons personagens e uma trama inteligente. Porém, pecou ao focar a maior parte da estória naquilo que era menos interessante. Uma escolha sem justificativas e que, por mais que eu me esforce, não consigo entender. 

Título: Deuses Americanos
Autor: Neil Gaiman
N.º de páginas: 574
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Top Comentarista Junho


No Top Comentarista de Junho, o vencedor poderá escolher o livro que quer ganhar dentre as quatro opções: Quem era ela, Simon vs a Agenda Homo Sapiens, Doze Anos de Escravidão e Silêncio.

Confira o regulamento:

1. Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebookcomentar em todas as postagens de junho e ter um endereço de entrega no Brasil.

2. Para simplificar, optamos por utilizar o Rafflecopter. A primeira entrada confirma sua participação no Top Comentarista, enquanto as demais constituem chances extras, sendo opcionais. Atenção: depois de feito o sorteio será conferido se o sorteado comentou em todas as postagens do mês. Caso essa regra não seja cumprida, o mesmo será desclassificado, e um novo sorteio será realizado.

3. Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog no twitter. 

4. Lembrando que somente serão válidos comentários significativos. Ou seja, comentários do gênero “interessante”, “legal” ou “ótima resenha” não serão computados. O participante poderá comentar apenas uma vez em cada post.

5. O sorteado poderá escolher os dois livros que deseja receber dentre as quatro opções disponíveis:
Quem era elade J.P. Delaney;
- Simon vs a Agenda Homo Sapiens, de Becky Albertalli;
- Doze Anos de Escravidão, de Solomon Northup;
- Silêncio, de Richelle Mead.

6. O resultado do Top Comentarista será divulgado no blog até o dia 05 de julho.

7. O sorteado será contatado por email, tendo o prazo de 48h para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

8. O prêmio será enviado pelo blog no prazo de trinta dias úteis.

9. A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway
 

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